A Tradução Passada a Limpo e a Visibilidade do Tradutor

Como viga mestra de qualquer projeto de vocação logocên- trica, a semiologia clássica parte do pressuposto de que há, por trás de todo signo, um referente externo ao sistema lingüístico,assim como há uma origem primordial e definida por trás de toda derivação ou uma presença real e resgatável por trás de todo simulacro. O signo, a derivação e o simulacro representam aquilo que deveria estar presente e, nessa representação que é também uma ausência, usurpam o lugar do “original”. Como re- sume Jacques Derrida.

Dentro dessa lógica — que tem determinado os rumos c os
tes da maioria de nossas reflexões sobre a linguagem — o signo e, em especial, a escritura, o signo escrito, “como agente do adia- mento da presença”, “é concebível apenas com base na presença que adia e no movimento em direção à presença adiada que pre- tende resgatar”. Conseqüentemente, de acordo com essa semio- logia, “a substituição da coisa-em-si pelo signo é tanto secundária quanto provisória”

Através dessa ótica, podemos focalizar também a problemáti- ca da tradução e dos chamados textos “originais” dentro dos limi- tes do logocentrismo. Se na relação signo/referente, o primeiro é visto apenas como mediação e adiamento, como mero substitu- to daquilo a que se refere, na relação tradução/”original”, o se- gundo passa a ocupar o lugar da coisa-em-si, da presença do significado que a tradução, como um adiamento incômodo, ape- nas representa e substitui. Nessa posição ingrata de simulacro, de representante inadequado do “original” em outra língua, em ou- tro tempo e em outra cultura, nessa função de “agente do adia- mento” e de “desvio” a que se recorre quando não se tem acesso à matriz “original”, toda tradução é também necessariamente

cundária e provisória em relação àquilo que supostamente substitui. Todas as metáforas que a tradição logocêntrica tem escolhido para descrever e explicar a relação “originar/tradu- ção derivam precisamente dessa concepção clássica de signo e das relações que lhe permite estabelecer com seu referente. Portanto, dela derivam também os preconceitos, as noções de inadequação e inferioridade, de traição e de deformação e, so- bretudo, a impossível tarefa que se impõe a todo tradutor: a expectativa de que seja não apenas invisível e inconspícuo, mas de que possa também colocar-se na pele, no lugar e no tempo do autor que traduz, sem deixar de ser ele mesmo e sem vio- lentar a sintaxe e a fluidez de sua língua, de seu tempo e de sua cultura.
Nessejogo conveniente armado pelo culto ao logos, em que a tradução assume a posição secundária de signo e o “original” as- sume o lugar privilegiado da coisa-em-si, escamoteia-se o próprio pressuposto cultivado pelo logocentrismo, que condena qualquer escritura à condição de signo, de significante e de substituto. Nesse jogo de esconde-esconde, escamoteia-se a noção de que todo “original”, como os signos que o constituem, é também me- diação e simulacro e, portanto, também “provisório” e “secundá- rio”. Toma-se o texto a ser traduzido —já secundário e provisório por sua condição de signo — pela presença, pela coisa-em-si, pelo “original”, por aquilo que supostamente poderia ser objetivamen- te reconhecido e determinado. A oposição tradução/”original” é, nesse sentido, exemplar da busca incessante empreendida por essa metafísica da presença que precisa sempre imaginar algum nível de conhecimento que pudesse estar a salvo da relatividade e da finitude humanas. Um dos sintomas mais recorrentes dessa busca é a redução do conhecimento e do “real” a oposições bina- das em que se atribui a um dos elementos uma posição de priori- dade e de controle sobre o outro. Modeladas a partir da primeira grande oposição imaginada por esse culto à consciência e à razão — aquela que permite separar o sujeito do objeto e subjugar o se- gundo ao poder e ao controle do primeiro — essas oposições per- mitem idealizar um dos termos e nele concentrar sua ilusão de estabilidade e de presença. Assim, se na oposição signo/referen- te, cabe ao signo a posição secundária de simulacro, na oposição “originar/tradução, os signos que constituem o texto a ser tra-
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duzido perdem sua posição “inferior” e passam a ser encarados como estáveis e “originais”.
O lugar da origem, do original, da coisa-em-si é sempre ou- tro, sempre transferido através de um substituto que apenas ace- na com a promessa de uma presença que nunca se apresenta em si e por si mesma. Partindo do insight saussuriano de que é o princípio da diferença e da arbitrariedade que necessariamente constitui todo processo de significação, a desconstrução do logo- centrismo proposta por Derrida tem tentado demonstrar que não há saída possível do labirinto inescapável de signos que se re- ferem sempre e tão-somente a outros signos, num processo de adiamento infinito que proíbe qualquer encontro com uma su- posta presença externa a esse labirinto. Assim, não há nessejogo arbitrário de diferenças nenhum significado que pudesse estar presente em si e referir-se apenas a si próprio e, por isso mesmo, ocupar um lugar privilegiado fora das regras do jogo. A esse
jogo, a esse adiamento infinito, em que cada signo transfere sem- pre para outro o rastro da origem perseguida, Derrida tem cha- mado de différance, um neologismo que explora o duplo sentido do verbo francês “différer”. Como o português “diferir”, “différer” pode significar tanto “adiar”, “procrastinar”, “retardar” como “di- vergir”, “discordar”, “ser diferente”. Em francês, nenhum subs- tantivo se formou a partir desse verbo em seu sentido de “adiar”. “Différance” aglutina, assim, tanto a diferença quanto o adiamen- to, referindo-se a uma diferença ao mesmo tempo temporal e es- pacial. Como a diferença entre “différence” e “différance” não é ouvida, ou seja, é apenas perceptível na escritura, o “a” de “diffé- rance” marca precisamente, como pretende Derrida, “a diferença da escritura dentro e antes da própria fala” (1982, p. 4), subver- tendo a distinção tradicionalmente estabelecida entre a fala e es- critura, além da própria tradição que sempre atribuiu à primeira a prioridade e a maior intimidade com o “verdadeiro”. Já que cada conceito, significado ou signo se inscreve “numa corrente ou num sistema dentro do qual se refere ao outro, a outros con- ceitos, através dojogo sistemático de diferenças”, “différance” não é apenas “um simples conceito” mas “a própria possibilidade de qualquer sistema de significação” (1982, p. 63). Como esse jogo de diferenças e adiamentos funciona como uma espécie de escri- tura anterior à fala e elimina a possibilidade de uma origem exte-
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rior ao sistema, subverte não apenas os termos que regem a arti- culação da oposição fala/escritura, mas também os de todas as outras. No jogo da différance, “cada elemento de inia oposição não é nada além do outro diferente e diferido, um diferindo o outro e do outro. Cada um deles é o outro em différance, cada um deles é a différance do outro” (1982, p. 18).
É precisamente essa relação de mútua différance, tão evidente
entre “original” e tradução, que a tradição logocêntrica precisou
sempre recalcar através da sacralização do “original” (transforma-
do no templo intocável dos significados supostamente estáveis e
mumificados de seu autor) e da marginalização do tradutor e de
seu ofício. E é pela relação exemplar de mútua différance que
qualquer tradução demonstra estabelecer com seu “original” que
a problemática da tradução passa a ocupar, a partir da reflexão
desconstrutivista, um lugar de destaque no pensamento contem-
porâneo. Se toda tradução “falha” ao tentar reproduzir a totalida-
de de seu “original”, é exatamente porque não existe essa
totalidade como uma presença plasmada no texto e imune à lei-
tura e à mudança de contexto, mesmo dentro do que chamamos
de uma “única” língua, desestabilizando, assim, a concepção lo-
gocêntrica de origem e plenitude e, conseqüentemente, a crença
na possibilidade de significados estáveis e independentes dojogo
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Obviamente, a força dessa desconstrução ultrapassa os limi- tes de uma teoria da tradução e até mesmo de uma teoria da lin- guagem nos moldes tradicionalmente restritos. Como conclui Derrida, em “A Farmácia de Platão”, “ao lidarmos com o proble- ma da tradução, estamos lidando com nada menos do que com o problema dá passagem para a filosofia” (1972, p. 80). Se a passa- gem de um significado de uma língua para outra, de um contex- to, de um tempo c lugar para outros, é irremediavelmente marcada pela diferença e pelo adiamento, se aquele que supo- mos ser o “mesmo” é flagrado como “diferente” e como “outro” nessa passagem de uma língua para outra, como poderá a filoso- fia proteger desse jogo implacável seu interesse inaugural na pos- sibilidade de uma “passagem” para uma verdade universal, anterior e exterior a qualquer língua? Nesse sentido, a problemá- tica da tradução — tão perigosa para os interesses da lingüística e da teoria literária comprometidas com o logocentrismo e, por